Ela ficou em silêncio um, cinco dez, quinze minutos. Ainda que estivesse angustiada com falta de som na sala e pensando no que sua terapeuta estava pensando, não conseguiu perguntar ou dizer. Lá fora, ouvia vozes animadas, talvez uma conversa na recepção, talvez alguém rua. Dentro da sala, ouvia sua respiração e só. A terapeuta a olhava, ela sabia, mas ela não olhava de volta.

Queria contar que dentro do peito morava um vazio que ela não sabia explicar de onde veio e para onde ia. Queria chorar, mas não conseguia – quase nunca chorava. Queria falar, mas não encontrava por onde começar ou como descrever o que sentia. Queria ser abraçada, mas não conhecia quem pudesse lhe oferecer o abraço necessário para preencher o vazio do peito (será que existiria esse abraço?). No lugar de todas as expressões, reinava o silêncio que já chegava a quase 20 minutos.

Muitas vezes tentava imaginar o que a terapeuta pensava quando ela se silenciava. Gostava de imaginar que ela estivesse angustiada também, querendo falar alguma coisa. Desse jeito ela não se sentia tão impotente; dividiria a incompetência da expressão com uma profissional. Às vezes achava que o tempo tinha sido tão grande desde a da última frase que a psicóloga deveria ter se distraído pensando nas compras do mercado que teria de levar para casa. Será que ela mora em casa ou apartamento? Ela tem cara que mora em apartamento com muitas plantas. Que estranho pensar que ela tem uma vida outra que não nesses nossos 50 minutos da semana. Ela nunca me fala da semana dela. Não sei nem se ela está acompanhando a política… em quem será que ela votou?

Levantou o olhar rapidamente em sua direção e notou que ela ainda a observava com atenção. A terapeuta repousava nema um olhar calmo, mesmo que nada tivesse sido dito até então. Não pedia sua fala, não suspirava, não se agitava na poltrona. Só a observava. O que será que ela via que precisava de tanta atenção, e isso era um grande privilégio. Naqueles minutos, não era necessário que se explicasse, ou que preenchesse o tempo com teorias ou perguntas sobre a origem de seus comportamentos. A terapeuta só estava ali, dividindo o tempo e o silêncio com ela. Experimentou se observar como ela a observava. Não pensou mais na casa, na semana ou na opinião política que ela teria.

Ao invés disso, olhava para si.

Depois de alguns minutos, pôde relaxar e mergulhar no que sentia e no que pensava.

Pensou em algum tema que gostaria de falar e se preparou para iniciar, quando ouviu aquela frase conhecida: Nosso tempo acabou, nos encontramos na próxima semana.

Levou um susto, já teriam se passado 50 minutos!? Todo esse tempo sem uma palavra? Pegou a bolsa, levantou, arrumou a roupa que estava um tanto amassada e se despediu. Antes de sair, a terapeuta lhe disse: Obrigada por compartilhar comigo!

Consentiu com a cabeça e saiu, pensando que sentia-se ainda mais próxima agora que puderam compartilhar o barulho que morava dentro dela.

Texto de Elis Pena – Psicóloga (CRP 06/110125)

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