Comumente ouvimos alguém dizer que está triste e desanimado e lá vai o diagnóstico do senso comum… está com depressão, algumas vezes até com tratamento medicamentoso, que seria totalmente dispensável.

Tão preocupante quanto a primeira situação é se deparar com um quadro instalado de depressão e dizer que é frescura ou falta de vontade.

O eterno FLAxFLU da psicopatologia: A patologização do normal X a normalização do patológico.
A depressão clínica ou biológica não é apenas um humor passageiro. O sentimento de inadequação e desesperança perdura por semanas, meses ou anos e precisa de acompanhamento médico psiquiatria e/ou psicológico.

A depressão pode afetar qualquer pessoa em qualquer momento da sua vida, inclusive crianças e adolescentes. Na maioria dos transtornos mentais, não há pesquisas conclusivas a respeito da origem desta condição, no entanto, pode-se considerar uma combinação de fatores, que incluem genética, composição neurobiológica, histórico familiar, a própria personalidade e fatores psicológicos.

Os sintomas da depressão se apresenta de inúmeras formas e as experiências são diferentes para cada pessoa. Uma pessoa com depressão não necessariamente se para as outras pessoas, no entanto, pode ser observado o grande sacrifício para ela realizar atividades triviais do cotidiano como se alimentar, vestir-se ou ter cuidados com a auto-higiene. Em alguns casos, por fora parece que está tudo bem, mas por dentro o que predomina são os pensamentos de ruína e desesperança. A depressão não é tão facilmente avaliada, nem pelas pessoas próximas e nem pelo próprio indivíduo. Requer um olhar atento e treinado.

O diagnóstico confiável deve ser realizado por um profissional de saúde mental como psicólogo e psiquiatra. Embora, um clínico geral seja capaz de fazer um diagnóstico inicial, é importante que o tratamento/acompanhamento seja realizado por um profissional especializado. A depressão pode ser tratada com sucesso com auxílio de psicoterapia e/ou com medicamentos antidepressivos. Para a maioria dos casos a combinação de ambos traz melhores resultados.
Se perceber em si ou alguém próximo alguns dos sintomas relatados abaixo, é importante que busque uma avaliação o quanto antes.

Sintomas da depressão:

  • Tristeza, sentimento de melancolia, choro fácil e/ou frequente.
  • Apatia
  • Sentimento de falta de sentimento (não consigo sentir nada)
  • Sentimento de tédio, de aborrecimento crônico
  • Irritabilidade aumentada (a ruídos, pessoas, vozes, etc.)
  • Angústia ou ansiedade
  • Desespero/desesperança
  • Anedonia (incapacidade de sentir prazer em várias esferas da vida)
  • Fadiga, desânimo. cansaço fácil e constante (sente o corpo pesado)
  • Insônia ou hipersonia (sono excessivo)
  • Perda ou aumento de apetite
  • Perda da libido (do desejo sexual)
  • Ideação negativa, pessimismo em relação a tudo
  • Ideias de arrependimento e de culpa
  • Ruminações com mágoas antigas
  • Visão do mundo marcada pelo tédio (“A vida é vazia, sem sentido; nada vale a pena”)
  • Ideias de morte, desejo de desaparecer, dormir pra sempre, ideação, planos ou atos suicidas
  • Alterações cognitivas – Déficit de atenção e déficit secundário de memória
  • Em casos mais graves – Sintomas psicóticos com ideias delirantes de conteúdo negativo, delírios e alucinações

A depressão tem várias facetas e é preciso considerar  ainda os vários subtipos comumente encontrados na prática clínica, como:

  • Episódio ou fase depressiva e transtorno depressivo recorrente – Difere nas recorrências do episódios.
  • Distimia – Trata-se de uma depressão crônica, geralmente de intensidade leve, muito duradoura. Começa no início da vida adulta e persiste por vários anos.
  • Depressão atípica – Subtipo de depressão que pode ocorrer com intensidade leve a grave, em transtorno unipolar e bipolar. Reatividade do humor aumentado, melhora rapidamente com eventos positivos, tem baixa tolerância a frustração, fobias e aspectos histriônicos.
  • Depressão tipo melancólica ou endógena – Nesta, não existe uma situação externa desencadeadora, ocorre disfunção devido fatores biológicos ou hereditários. Piora dos sintomas no período da manhã (melhora no período da tarde e da noite).
  • Depressão psicótica – É uma depressão grave, na qual ocorrem, associados aos sintomas depressivos, um ou mais sintomas psicóticos, como delírio, ruína ou culpa, delírio hipocondríaco ou de negação de órgãos ou alucinações com conteúdos depressivos
  • Depressão agitada ou ansiosa – É a depressão com forte componente ansioso e inquietação psicomotora. O paciente queixa-se de angústia intensa associada aos sintomas depressivos, não para quieto, insone e irritado. Em casos graves, risco de suicídio.

Vale ressaltar que uma pessoa pode apresentar somente alguns sintomas citados, o importante é buscar o diagnóstico correto e tratamento adequado com um profissional.

Para finalizar, é válido ressaltar que existe a depressão normal também, aliás, é adequada e necessária. Entristecer, introspectar e se fechar é muito importante para elaboração de perdas, frustrações e erros. São os pequenos lutos do cotidiano, tristezas que não duram mais do que poucos dias. Acontece quando você perde um familiar, sofre um rompimento amoroso ou é desligado do trabalho. Nestes casos não há necessidade de medicalização. A pessoa com seus próprios recurso internos ou com auxílio de psicoterapia consegue elaborar seus conflitos e encontrar soluções satisfatórias para melhorar seu estado de ânimo.

Na dúvida se é normal ou patológico, buscar sempre um profissional da sua confiança para auxiliá-lo no processo do autoconhecimento.

Texto de: Jane Kelli Tineui Candia – Psicóloga – CRP/107250